(62) 3522-3163   |        redacao@imobnews.com.br   |      The Prime Tamandaré Office - Rua 5, nº691, St. Oeste - Goiânia-GO                                  

Comércio vira legado de pais para filhos, em Goiás

Compartilhe:
 

Famílias do setor de materiais de construção mostram como experiência, confiança e novos modelos de gestão ajudam pequenos negócios a atravessar gerações_

 

Ana Rita Monteiro

08 de agosto de 2026

O comércio é uma das atividades mais antigas da história da humanidade, que surgiu na medida em que a civilização começou a se organizar em sociedades fixas. Desde então, é uma das principais âncoras da economia mundial. Em Goiás, ele representa mais de 15% do PIB do Estado. São mais de 350 mil empresas do segmento, que empregam mais de dois milhões de pessoas, conforme dados do Instituto Mauro Borges.

Ele evoluiu muito da sua forma inicial - o escambo - até chegar ao e-commerce. Mesmo assim mantém a essência simples, de levar produtos e serviços ao consumidor, o que nem sempre tem o glamour de outras atividades. Assim mesmo tem despertado paixão, de geração em geração. 

No setor de materiais de construção, muitas são as histórias como essas mostram como o comércio se perpetua na trajetória de muitas famílias. E por trás delas, está uma grande admiração dos filhos a seus pais.

Os irmãos Thiago Pacheco, de 36 anos,  e Claudio Pacheco Filho, 34, cresceram brincando na loja de materiais de construção de seu pai, Cláudio Pacheco, onde cada visita era uma brincadeira. “De repente, uma ida à loja era uma diversão porque tinha muito botão para apertar, muita areia para pular, muito parafuso para contar”, recorda Thiago.

Com o passar dos anos, aquilo que parecia apenas festa se transformou em admiração, espelho, paixão. Na adolescência, o pai começou a dar pequenas funções aos filhos nas férias e, aos poucos, eles passaram a entender mais sobre o negócio. E, apesar de terem feito cursos superiores em outras áreas - um fez engenharia civil e o outro, engenharia de produção - eles acabaram optando por seguir o pai.

O negócio se multiplicou. De uma loja fundada pelo pai - a Rede da Construção Pacheco Independência - hoje a família tem quatro. Thiago fica à frente  da Rede da Construção Construnorte, também na capital; Cláudio Filho atua nas unidades de Piracanjuba e Goiatuba.

Enquanto na adolescência dos filhos, o pai relata que precisou acompanhar os filhos, ensinar-lhes através do exemplo o valor do trabalho e da responsabilidade, e estimulá-los a serem produtivos, hoje, na vida adulta, eles foram um trio colaborativo. "Meu pai tem um conhecimento muito grande sobre o mercado, então qualquer dúvida a gente tira com ele. Agora, o contrário também acontece. A gente, com um pouco mais conhecimento em tecnologia e gestão, também é bastante consultado por ele. É uma troca mútua de experiência", diz Thiago, o filho mais velho.

*Sucessão*

O desfecho da Cláudio Pacheco é uma exceção, segundo as pesquisas. De um pequeno comércio a um grande conglomerado empresarial, a grande maioria dos sucessores das empresas acabam tendo problemas para garantir a sobrevivência do negócio.

“Muitas vezes, os filhos não querem trabalhar no negócio dos pais. Querem construir a própria história ou, hoje, com as novas tecnologias, talvez seguir outro segmento. As empresas acabam não tendo sucessores. Com isso, ocorre uma concentração das empresas: elas são vendidas ou fechadas. Hoje, a família possui quatro unidades da Rede da Construção: a fundada pelo pai, em Goiânia, uma segunda unidade na capital, e duas no interior, em Piracanjuba e Goiatuba.  

O Índice Global de Empresas Familiares, da PwC, aponta que apenas 36% das empresas desse tipo vão à 2ª geração. Para o empresário, a sucessão não acontece de forma imediata. Ela depende de acompanhamento, paciência e da autonomia necessária para que os filhos aprendam com as próprias decisões. “Nós conseguimos fazer essa transição, e eu fico feliz em colher este fruto”, diz.

Para Thiago, dar continuidade à atividade iniciada pelo pai envolve orgulho e responsabilidade. “A trajetória do meu pai representa muito para mim. Representa, principalmente, a responsabilidade por tudo o que ele construiu, o legado, um sentimento de orgulho e um sentimento de dever de deixar as pegadas dele no mercado”, diz 

O conhecimento adquirido no balcão, a relação construída com os clientes e os ensinamentos transmitidos pelo pai são valores imensuráveis e ultrapassam o ambiente profissional, diz Cláudio Filho.  “Até hoje, aos 35 anos, meu pai ainda é o meu super-herói, a pessoa em quem me inspiro até mesmo para educar os meus filhos”, declara.



 

*Uma trajetória construída em família*

Também em Goiânia, Bruno Resende Garcia dá continuidade à história da Rede da Construção Jarina, fundada em 1990 por seu pai, Antonio Levertino Garcia. A empresa surgiu depois que Antônio perdeu o emprego público federal em meio às mudanças econômicas e aos planos de governo da época. Diante da necessidade, decidiu empreender.

Bruno também cresceu acompanhando o movimento de clientes, fornecedores e caminhões na loja. Na infância, brincava com seus caminhõezinhos, imitando a rotina do estabelecimento. Aos poucos, passou a conhecer os produtos e a entender o funcionamento do comércio, sempre incentivado pelo pai.

A sucessão começou em 2009, quando Bruno ainda cursava Direito e Antonio precisou retornar ao serviço público. O pai confiou ao filho a administração da loja, mas continuou acompanhando de perto o trabalho. Após concluir a graduação, em 2014, Bruno percebeu que seu caminho profissional estava no comércio e assumiu a empresa com uma visão mais voltada ao crescimento.

Atualmente, Bruno é responsável pela gestão da equipe, pelo relacionamento com fornecedores, pelas compras, vendas e decisões estratégicas. O pai deixou formalmente a sociedade, mas continua presente na rotina da loja e nas decisões mais importantes.

A continuidade da empresa representa, para Bruno, a transformação de uma iniciativa criada em um momento difícil em um projeto familiar com perspectivas de futuro. Para ele, o maior desafio é honrar a confiança recebida do pai enquanto trabalha para modernizar e ampliar o negócio.

“Para mim, dar continuidade a esse trabalho é transformar uma história que começou por necessidade em um sonho realizado. É uma forma de honrar tudo o que meu pai construiu, mas também de preparar a empresa para o futuro, mantendo os mesmos valores e buscando evolução constante.”

*De entregas em carroça à sucessão familiar*

Em Quirinópolis, Angel Honorio Alves, gerente-geral da Rede da Construção Depósito Tijolão, também cresceu dentro do negócio iniciado pelo pai. A história da empresa começou depois que a família deixou Goianésia e se mudou para o município, em 1983. Quatro anos mais tarde, em 1987, o pai de Angel decidiu abrir a loja.

No início, a estrutura era simples, com poucos produtos e muitas dificuldades. As entregas eram feitas em carroças, não havia telefone celular nem computador e boa parte da comunicação dependia de orelhões e aparelhos de fax. Com o passar dos anos, a empresa ampliou o número de produtos, contratou funcionários e adquiriu veículos.

Angel acompanhou de perto esse crescimento. Por volta dos oito ou nove anos, já frequentava a loja com os pais. Enquanto o pai carregava manualmente areia e brita, ele permanecia no escritório para atender o telefone ou chamá-lo quando algum cliente chegava. Também guarda lembranças das brincadeiras com a irmã nos montes de areia e nos espaços usados para armazenar madeira.

Entre os 16 e os 18 anos, Angel percebeu que desejava permanecer no setor e dar continuidade ao trabalho da família. Segundo ele, além de gostar da atividade, enxergava no comércio de materiais de construção um segmento em constante evolução, com novos produtos e tecnologias.

A transição ainda está em andamento. O pai continua trabalhando na empresa ao lado de Angel e da esposa dele, participando das atividades e das decisões. Para o gerente-geral, a convivência entre as gerações têm tornado o processo tranquilo.

“Os ensinamentos foram sobre honestidade, ser correto nas coisas, trabalhar da forma certa, atender as pessoas da melhor maneira possível e saber o que você está vendendo e o que está ganhando”, afirma Angel Honorio Alves, gerente-geral da Rede da Construção Depósito Tijolão.

*Três gerações no mesmo setor*

Em Itapuranga, a sucessão familiar também faz parte da história da Rede da Construção DiCasa. O negócio foi iniciado pelos pais de Gustavo Ribeiro Dias em 2008, após a compra da antiga Rinco Ferragista. Na época, ele tinha 12 anos e participou da contagem do estoque, separando parafusos, porcas, arruelas, tintas e outros produtos.

A relação da família com o segmento começou ainda antes. Segundo Gustavo, o avô materno já trabalhava com materiais de construção desde a década de 1980. Depois de se aposentar, ajudou a filha a abrir a própria loja. Assim, a atividade passou do avô para a mãe e, posteriormente, para o neto.

Formado em Direito e atuando como advogado, Gustavo retornou a Itapuranga e passou a se dedicar cada vez mais à empresa. Segundo ele, a entrada na Rede da Construção e as mudanças implementadas na gestão contribuíram para a expansão da loja.

Desde que passou a trabalhar efetivamente no negócio, em 2018, Gustavo promoveu alterações no sistema, na fachada, no piso, no modelo de gestão e na organização do espaço. De acordo com ele, a loja triplicou de tamanho e quadruplicou o faturamento nesse período, resultado que atribui também ao trabalho desenvolvido pelos pais ao longo dos anos.

A empresa precisou deixar o endereço original e se transferir para uma área maior, acompanhando o crescimento das operações. Mesmo com as mudanças, Gustavo afirma que busca preservar os princípios que consolidaram a reputação da família na cidade.

“Os valores que eles me passaram estão relacionados ao compromisso com o trabalho e à honestidade”, afirma o sucessor da DiCasa. Para ele, assumir a empresa não significa apenas administrar uma loja, mas dar continuidade a uma história iniciada há três gerações. “Eu sou o sucessor desse legado”, resume.

 

Compartilhe:
 
MAIS NOTÍCIAS

Copyright © 2026 IMOBNEWS. Todos os Direitos reservados. [agencia]